Haicaipiras,
haicais tipo Pellegrini
e também zaicais, haicais
sobre a natureza humana

Sobre Haicais:
 Ø Artigo - Jóia Poética (link)
Ø Haicais de Pellegrini - Artigo de Luiz Cláudio Oliveira (link)
Ø Artigo - Poema ninja (link)

Livro autografado
R$ 30,00

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Jóia Poética


Artigo
CASA DO HAICAI
Jóia Poética


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Domingos Pellegrini


O haicai é poema de forma fixa que saiu do Oriente para conquistar o mundo, como o soneto saiu do Ocidente para também se consagrar em todo o mundo.

Na verdade, o soneto corresponde a uma quadra de estrofes (dois quartetos e dois tercetos), representando a quadradeza ocidental. E o haicai, com seus três versos, representa a redondice oriental.

A penetração do haicai no Ocidente e do soneto no Oriente foi um dos tantos indícios precursores da globalização, que faz o Ocidente se arredondar e o Oriente se enquadrar.
No Japão, o haicai era uma forma de poesia "leve, cômica ou epigramática", conforme Octavio Paz. Era a primeira parte do poema waka ou tanka, de 5 versos, sendo os três primeiros chamados oku, completados por mais dois. Na poesia japonesa não há rima, apenas métrica, e apenas versos de 5 e 7 sílabas, ao contrário da grande variedade métrica poética ocidental, que vai do verso de 2 ao de 12 sílabas.
A poesia japonesa, porém, é rica de sons internos, "onomatopéias, aliterações e jogos de palavras" (Paz).

Ao introduzir o haicai no Brasil, Guilherme de Almeida pregou uma forma que parecia destinada a só ele fazer haicai, com seu virtuosismo. Os versos de 5 sílabas, o primeiro e o terceiro, rimavam; e o segundo verso, de 7 sílabas, devia ter uma rima interna da segunda sílaba com a sétima:

Lava, escorre, agita
a bateia. E enfim na areia
fica uma pepita.

Como Bilac comparou a arte poética à ouriveria, criação de jóias, Guilherme compara com a garimpagem, a procura de pedras preciosas. E o toque precioso é que o ponto final, cercado de palavras no meio do segundo verso, afigura-se como a pepita cercada de areia na bateia...

No Japão, Basho foi o poeta que, no início do século 17, alçou o haicai a uma condição nobre, tornando-o lente para focar visões delicadas, reflexivas e filosóficas da natureza. Seu mais famoso haicai, o da rã que pula na lagoa, foi traduzido por muitos aqui, mas a melhor tradução é a do baiano Oldegar Vieira. Tomo a liberdade de trocar rã por sapo, para acentuar a aliteração da consoante "p" no primeiro verso, e também coloco a cores as aliterações (repetições de letras ou fonemas) e rimas ou assonâncias (sons semelhantes), para evidenciar o denso tecido fonético ou sonoro que também caracteriza o haicai japonês tradicional:

Ploc! Um sapo pula
no silêncio da lagoa
e o silêncio ondula...

(Faltaram cores para assinalar todas as aliterações... Mas fica evidente que a repetição dos "o"s reproduz graficamente as ondas concêntricas que se formam na água onde pulou o sapo... E a leveza de seu salto é indiciada pela repetição dos "l"s (éles). A repetição dos "s" assinala o silêncio... A repetição dos "p" parece representar a ligeireza vigorosa do pulo do sapo... E até as reticências finais parecem continuar o sentido todo, os pontos em sequência como são sequenciais as ondas concêntricas na superfície da água...)
Na evolução modernista do haicai, ele perde o rigor da métrica fixa em 5-7-5 sílabas, e mesmo dispensa a densidade fonética, desde que porém conserve a graça (no seu melhor sentido), como em Leminski

A noite
me pinga uma estrela no olho
e passa...

Nos meus haicaipiras, mantenho a métrica livre mas com densidade fonética ou, então, algum truque gracioso de forma ou sentido. Neste a graça é concretista, com os versos cortados figurando o corte da cebola:

A paz de descas
car uma cebol
a chorar

Neste outro, a repetição de "lh" figura a transmissão genética, como um DNA fonético a percorrendo os versos:

O orgulho
de olhar teu brilho
no olhar do filho

Neste, a repetição de "r" reproduz o canto das cigarras, entre as aliterações em "a" e a rima interna tanta/canta(r):

Tanta cigarra
nessa garra
de cantar

Os haicais podem também ser feitos em série, um tomando um verso ou continuando o assunto do anterior, como nesta dupla em que, além da intensa fonetização, a graça é visual, assumindo as formas de taça e troféu:

Tua astúcia
é a tua
ta
ça


Tua fé
é
teu
troféu
Mas o haicai pode ser também puramente conceitual, brincando ou jogando apenas com o sentido das palavras:


Sol gema
na frigideira azul do céu
nuvem clara

A graça do haicai pode ser tipográfica:

Karma eskisito
enkarno todas
máskaras ke visto

Prefiro os haicaipiras que juntam seus artifícios com seus significados:

Minha casa meu canto
meu aqui meu enfim
meu pouco meu quanto
Um pouc d bagunç
sempr arrum
alguma cois a

Carma, assim é a vida
quanto mais longa
mais cumprida


Brasil amo você
mesmo com tanto mas
e apesar de



(As referência de Octavio Paz são do mais completo livro sobre haicai no Brasil, Oku, Viajando com Basho, do londrinense hoje baiano Carlos Verçosa. Endereço: Ladeira da Barra, 2901, Condomínio Solar das Mangueiras, Ala Norte, ap. 1501, Barra, cep 40130-001, Salvador, Bahia.)



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